1ª Conferencia sobre Arquitectura e Investigação


Falar de Arquitectura & Investigação não significa nada e significa tudo, daí a necessidade de estabelecer um ciclo de conferências, no qual em cada uma se abordam campos específicos. Daí a necessidade do subtítulo das Conferências que separa aquilo que designamos por Investigação em Arquitectura da Investigação sobre Arquitectura. Esta diferenciação prende-se com uma característica já mencionada no mais antigo texto de Arquitectura, no qual se pode ler:

O saber do arquitecto é ornado de muitas disciplinas e vários conhecimentos, o seu juízo avalia todas as obras feitas pelas restantes artes. Ele nasce pela (com a) fábrica e pelo (com o) raciocínio. A fábrica é a preparação continuamente exercitada pela experiência, e esta é aperfeiçoada pelo trabalho manual que partindo da matéria, qualquer que seja o seu género, a conforma com um determinado propósito. O raciocínio é o poder de demonstrar e de explicar, o que foi fabricado com a razão da proporção.
Vitruvio, De Architectura. (aprox. séc I a.C.)  I, 1, 1 De architectis instituendis.

Neste sentido parecem existir duas dimensões a da investigação em Arquitectura que se confunde com a prática e a investigação sobre a Arquitectura que se confunde com a teoria.
Para além deste parágrafo virá logo de seguida um segundo no qual o 1º tratado de arquitectura refere a multidisciplinaridade da disciplina e a necessidade de uma constante complementaridade entre a teoria e a prática.
Podemos por isso dizer que a heterogeneidade é uma situação estrutural da Arquitectura e que a investigação tanto pode apresentar a forma de uma Investigação em Arquitectura, como pode apresentar a forma de uma Investigação sobre Arquitectura, sendo ambas válidas e não tão distintas como seria espectável, pois, como refere Vitruvio,

(…) em todas as coisas e sobretudo na arquitectura, existem duas inerências: o que é significado e o que o significa. O significado é a coisa proposta, da qual se fala; enquanto o que significa, é a explicação doutrinal demonstrada pela razão. Assim aquele que quer ser reconhecido como arquitecto deve ser exercitado em cada uma daquelas partes. É por isso que, é necessário que seja dotado (de engenho) e disposto a aprender as razões da disciplina; com efeito dons sem conhecimentos ou conhecimentos sem dons não podem fazer um artífice perfeito. (…)
Vitruvio, De Architectura. (aprox. séc I a.C.)  I, 1, 3

Por isso a forma da investigação arquitectónica pode assumir-se de acordo com qualquer dos dois meios inerentes à Arquitectura, a coisa em si, o que é significado, a coisa proposta (o projecto) através da sua representação imagética (bidimensional ou tridimensional), mas também pode apresentar-se com a forma de uma explicação e demonstração usando para tal a representação linguística.
Mas, se a forma como a investigação se manifesta pode ser dupla, isto é, se a investigação arquitectónica se pode manifestar através do meio imagético e do meio linguístico, o que dizer da sua substância. Pois como Vitruvio nos diz “o saber do arquitecto é ornado de muitas disciplinas e vários conhecimentos”, citando depois um conjunto de disciplinas como as letras, o desenho, a geometria, a óptica, a aritmética, as histórias, a filosofia, a medicina, a música, as leis, a astrologia, etc. Variação e multiplicidade que coloca a arquitectura numa situação de heterogeneidade estrutural.
Tal como o problema da forma coloca problemas de interpretação à investigação, o problema da heterogeneidade da sua substância coloca dois problemas, o da sua legibilidade e o da sua definição disciplinar.
a)       A primeira porque a investigação pode ser sobre o espaço, mas se for sobre o espaço, pode ainda oferecer mais aspectos, o da percepção, da neurologia, da filosofia, etc. Também pode ser sobre o habitat, sobre o uso das ferramentas informáticas para a concepção arquitectónica, ou sobre o estudo dos conceitos operativos que estão na base da concepção arquitectónica, etc.  Mas o problema não é tanto a indefinição dada pela heterogeneidade do objecto, mas mais sobre a impossibilidade de lhe encontrar um qualquer limite temático, pois em última instância o objecto arquitectónico pode ser investigado de infinitos pontos de vista.
b)       A segunda porque aquela heterogeneidade implica uma multidisciplinaridade ou melhor uma interdisciplinaridade. Assim, não se exclui da investigação arquitectónica a ideia de que pode haver uma filosofia da arquitectura, uma sociologia da arquitectura, uma antropologia da arquitectura, tal como uma matemática, uma física, etc. Mas neste caso a disciplina mais definida, nos seus métodos e objectivos não é a arquitectura, mas aquela que com ela procura comunicar. Isto é, neste caso a pergunta sobre o que são relações interdisciplinares quando uma delas não apresenta essas delimitações, torna-se pertinente.

Perante esta heterogeneidade e indefinição da sua substância, pouco adianta fazer um levantamento tal como pouco adianta tentar delimitar a arquitectura em espartilhos que pertencem a outras áreas disciplinares. 
A única hipótese é alterar o nível conceptual do ponto de vista, isto é, a única hipótese será a de abordar esta questão através de um ponto de vista epistemológico de cariz pragmático e não mais segundo o sistema disciplinar dos currículos académicos.
Deste modo é preferível um pouco à imagem do sistema que Paul Valery emprestou para a análise dos estudos sobre a Estética, na qual encontra tudo “o que se relacione com o estudo das sensaçõesa que denomina estésica, “tudo o que diz respeito à produção de obras a que denominou poiética e finalmente tudo “onde se acumulariam as obras que tratam os problemas nos quais a Estésica e a Poiética se entre-cruzam.
Do mesmo modo a Arquitectura constitui-se quer como concepção, quer como representação, quer como produção quer ainda como recepção.
Produzindo assim um conjunto, relativamente extenso, mas agora organizado de espaços epistemológicos de investigação. Podendo a investigação basear-se apenas num dos aspectos epistemológicos, como podendo variar aqueles quatro aspectos de modo a criar uma investigação ecléctica e variada.
A Arquitectura só existe após um complexo problema de concepção, mas esta concepção é sempre de algum modo representada a fim de poder ser produzida e recebida por aqueles para quem a arquitectura foi realizada.

Esta 1ª Conferência sobre Arquitectura & Investigação apresenta investigações formalizadas numa imagética e apresenta o conjunto das quatro substâncias, enfatizando ora uma ora outra, ora umas e outras em simultâneo.

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